Terra Magazine

novembro 4, 2008

Adeus!

cia2008 às 5:01 pm

A normalidade voltou a San Salvador. Nas ruas e nos semáforos, crianças e jovens pedem “una cora, una cora”. “Cora” é a denominação salvadorenha para 25 centavos de dólar (“quarter”).

A dolarização da economia, em 2001, não impediu que os alimentos sejam os mais caros de toda a região. E a recessão nos Estados Unidos já está causando mais estragos: Diariamente, milhares de trabalhadores sem documentos são deportados para o México e para os países da América Central.

“Meus três filos estão sem trabalho”, lamenta o taxista José Fermín. “Eles têm 17, 19 e 22 anos. Os coyotes estão pedindo dez mil dólares por uma passagem para os Estados Unidos. Melhor montar um negócio com esse dinheiro”.

Como a grande maioria dos latino-americanos, incluindo os presidentes Hugo Chávez, Cristina Fernández de Kirchner ou Luiz Inácio Lula da Silva, Fermín tem uma clara preferência para esta noite: “Tomara que dê Obama!”

Este blogueiro endossa o coro e despede-se dos leitores e leitoras. A Lina, Marilú, Ulf, Gloria, Flor, Raphael, Karin, Daniel, América, David, Ingrid, Juan José, Bárbara, María Isabel, Roberto, Alma, Mari, Vagner, Cecibel e tantos outros, muito obrigado!

Gerhard Dilger/Especial para Terra Magazine

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novembro 3, 2008

O mundo de Evo

Tags: - cia2008 às 3:49 pm

Evo Morales está vivendo seu melhor momento como presidente. Em El Salvador, insistiu em suas críticas sobre o sistema capitalista, participou de uma partida de futebol contra os veteranos da seleção salvadorenha de 1982 e convidou a imprensa para uma breve coletiva, após o encerramento da Cúpula. Em 25 minutos, o presidente boliviano revelou boa parte de suas convicções políticas.

Gerhard Dilger/Especial para Terra Magazine

Um dia depois, anunciaria a suspensão das atividades do DEA, organismo chave dos Estados Unidos na política de combate às drogas. Na Bolívia, Morales acusa 27 agentes do DEA (Drug Enforcement Administration) de conspiração com a oposição.

Em El Salvador, o presidente, que acaba de completar 49 anos, explicou sua posição frente ao “Império”: “A luta contra o narcotráfico aplicada pelo Departamento de Estado Americano serve apenas para o controle político na América Latina”, disse Morales. Esta “luta contra o narcotráfico” serviria de “pretexto” para “dominar e sobrepujar” a América Latina, mediante a criação de bases militares.

“Felizmente, isso está acabando. No Equador já não haverá mais base militar, na Bolívia, não há base militar”, disse, dando conta do teor de pressão presente nas novas constituições de ambos países. “Com certeza isso os incomoda”, resumiu Morales.

Bem ao estilo franco e nada diplomático, que lhe é característico, acrescentou: “Com que motivos invadiram o Iraque? Armas de destruição em massa… Onde estão? O plano de fundo é o controle do petróleo, por meio de falsos pretextos. Que terrorismo… que eu saiba, o único terrorista que existe no mundo é o Bush, não conheço outro terrorista”.

Ao mesmo tempo, Morales reiterou seu desejo por estabelecer relações respeitosas: “O governo boliviano está disposto a ter relações com o novo governo dos Estados Unidos, dentro de uma cultura de diálogo, uma cultura de amizade, mas não vamos permitir a nenhum governo, a nenhum embaixador, que chegue a conspirar contra a Bolívia – numa referência à expulsão do diplomata americano Philip Goldberg, em setembro, uma medida que, na época, recebeu o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva.

Querem nos castigar, mas não conseguem

Também não se mostrou preocupado com as represálias de Bush, que está decidido a suspender privilégios alfandegários para as importações bolivianas, concedidos como recompensa à colaboração e ao suposto combate ao narcotráfico.

A medida ameaçaria uns 20 mil postos de trabalho, sobretudo na indústria têxtil de El Alto, subúrbio de La Paz. “Querem nos castigar, mas não conseguem”, explicou Morales, “São apenas 60 milhões de dólares por ano”, mas Hugo Chávez e Lula garantiram que Venezuela e Brasil estariam dispostos a abrir seus mercados para esta produção.

“Se compartilhássemos das mesmas políticas intervencionistas e de privatizações do sistema capitalista, seguramente os Estados Unidos dariam tudo para a Bolívia! Mas, felizmente, começamos a nos tornar dignos. Precisamos de boas relações com todo o mundo, mas não submissão. Isso acabou. Estamos preparados para nos defender contra o amedrontamento e a chantagem econômica.

A comparação com a Colômbia salta à vista e mostra a hipocrisia da medida do governo dos EUA: Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e o Crime (UNODC), em 2007 os cultivos de coca na Bolívia aumentaram 5%, enquanto que no país aliado de Washington, apesar do apoio bilionário através do Plano Colômbia, eles dispararam 27%. Evo Morales assinala outra diferença: “Nós respeitamos os direitos humanos, reduzimos as plantações em acordo com os movimentos sociais. Antes era militarização, mortos e feridos o tempo todo. Isso acabou”.

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À esquerda, o chanceler David Choquehuanca

As assimetrias que causam a migração

Em junho, o presidente indígena havia condenado a nova política de imigração da União Européia como “diretiva da vergonha”.

Agora, comentou que o tema veio à tona na reunião fechada apenas com os chefes de Estado, antes do encerramento da Cúpula: “Alguém dizia que o que pagamos por um mês de trabalho é o que se paga por um dia de trabalho nos Estados Unidos. Isto se deve à imigração. Na Bolívia há funcionários que ganham 200, 300 dólares, e estes funcionários preferem ir para a Europa para ganhar 1.000 euros por mês. Isto são as chamadas assimetrias, e os presidentes estão obrigados a discutir isto, se querem imigração com igualdade entre os continentes. Quando expulsam nossos compatriotas, há problemas sociais, botam para fora o pai, a mãe. E os filhos que ficam aí, o que vão fazer com estes filhos?”

“Os serviços básicos são direitos humanos”

“Como você quer abolir o capitalismo?”, perguntou um jornalista salvadorenho.

Morales tem uma visão otimista: “Há uma rebelião dos povos contra Império”, disse. “Na América Central, em Honduras, Nicarágua e Guatemala, há um processo que torna mais digna nossa região. E se falamos de América do Sul, há o companheiro Chávez, Equador. Em Cuba, Fidel já cumpre 50 anos da revolução cubana. Eu, como dirigente sindical nas décadas passadas, tinha muita vontade de apoiar esta luta solitária de Cuba”.

Apontou a pobreza nos países capitalistas. “Visto a partir de nossa vivência, não é solução nenhuma concentrar tanto dinheiro em poucas mãos, e quando não podem concentrar, há guerras e intervencionismo militar. Ou quando há este tipo de crise, decidem resolvê-la com base no saque de recursos naturais, as privatizações, não apenas de petróleo ou minerais, mas também da água, a privatização dos serviços básicos”.

Sua concepção de socialismo é basicamente estatal: “Nós estamos apostando, dentro da nova Constituição, em que nenhum serviço básico possa ser negociado através do setor privado. Luz, água, telefones, são direitos humanos, portanto, devem ser preocupação do Estado, do governo.”

“Tivemos nossos recursos naturais saqueados, e a aplicação, nos últimos 20 anos, do neoliberalismo, o que foi outro saque, outro roubo. Em 2005, antes de que eu fosse presidente, a Bolívia recebia 300 milhões de dólares pela exploração dos hidrocarbonetos. No ano passado, depois da modificação na lei dos hidrocarbonetos e da nacionalização, a Bolívia recebe 2 bilhões de dólares. Como mudou a situação econômica! A partir de nossa experiência, o neoliberalismo, o sistema capitalista não é nenhuma solução em meu país”.

Respeito à diferença

“Estamos dispostos a debater”, disse Morales, que a pesar de suas convicções, demonstrou desde 2003 ser um astuto negociador. “Eu, com minha experiência de luta sindical, de dirigente, e como presidente, quero debater políticas, mas tudo pensando em nossos povos. Respeitamos as diferenças que temos. Os povos têm todo o direito de decidir se são de esquerda, de direita. Temos o máximo respeito, isto também é democracia.”

“O povo boliviano quer transformações profundas, mas na democracia, com o voto do povo. Na Bolívia, as ditaduras militares dos anos 60 e 70 estão sendo substituídas por referendos, às vezes ilegais e inconstitucionais, mas eu saúdo a participação dos setores sociais e da comunidade internacional…”

Continuam aparecendo mais recursos naturais, o petróleo a flor da terra, o ferro a flor da terra, o lítio. Em quase 200 anos, nunca pensaram no país. Criamos um mistério para que planifique o desenvolvimento do povo boliviano nos próximos 50 anos, aproveitando estes recursos.

A cultura da corrupção

Em sua vida privada, Evo Morales é austero e trabalhador. Vê na corrupção um obstáculo maior: “Os senhores sabem que antes de que chegássemos ao governo, Bolívia era vice-campeã de corrupção”, disse. “Segundo dados de Transparência Internacional, começamos a baixar, baixar, continuamos baixando. Em geral, começamos a mudar.”

“Mas é difícil erradicar toda a corrupção, lamentavelmente. Eu posso dar minha cabeça pelo vice-presidente, pelo chanceler, por outros ministros. Mas são tantos funcionários de base que dizem que nos resta pouco tempo e pensam, ‘agora é a minha vez, vou aproveitar’…”.

“Também me ensinaram isso quando eu ganhei a executiva de uma federação de camponeses do Trópico de Cochabamba, em 1988. Chegou um doutor perto de mim, um advogado de gravata – perdão, não estou questionando a gravata, embora haja companheiros que dizem que a gravata separa o pensamento do sentimento”.

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“O doutor me disse: ‘Evito, o senhor tem que aproveitar, tem dois anos para aproveitar, e eu vou te ajudar para que aproveite, como gerente da aduana agropecuária, onde se faz dinheiro’”. E eu não podia dizer ao doutor de gravata que não aceitava. Eu não dizia nem sim nem não, mas mentalmente não aceitava”.

Evo, o esportista

“O esporte é a melhor forma de atender a juventude, a infância, pela saúde, educação, disciplina”, ressaltou Morales, cuja paixão por futebol é tão grande que inclusive conseguiu que a Fifa revogasse a polêmica decisão de não permitir partidas oficiais nas altitudes andinas. “Lamentavelmente, vi campos de esportes em meu país sendo privatizados. Como os campos esportivos podem ser negócio privado? É um serviço público, e agora estamos começando a mudar isso”.

“Nunca haverá meia-lua, agora é lua cheia”

Seguramente, o bom humor que Morales mostrou em El Salvador deve-se às grandes vitórias que conquistou nos últimos meses. Em agosto, foi confirmado como presidente, como no histórico resultado de 67,4%. Em setembro, Bolívia esteve à beira de um conflito maior, quando os opositores dos departamentos da região conhecida como “meia-lua”, na parte leste do país, fizeram saques, sabotagens e um massacre no departamento amazônico de Pando. O conflito foi resolvido com o apoio inequívoco dos presidentes da UNASUL, o novo bloco sul-americano fundado em maio. A oposição se dispôs a negociar.

Em meados de outubro, foi superada a paralisação do processo constituinte: Majoritariamente, a oposição no Congresso de La Paz selou um acordo com o governo, que cedeu em dois pontos importantes: Evo Morales não se candidatará a uma segunda reeleição em 2014, e as limitações para a posse de terras, de 5 a 10 mil hectares, não serão retroativas. Em janeiro de 2009, o texto modificado da Constituição será submetido a um plebiscito. E em dezembro, haverá eleições gerais.

“Eu já dou por aprovada a nova Constituição”, disse Morales. “Já estamos trabalhando em sua implementação. Precisamos de pelo menos 100 novas leis e a grande dúvida que tenho é se este parlamento pode acompanhar e aprovar novas leis.”

“Quanto à meia-lua, agora é lua cheia. Nunca existirá meia-lua. Há pequenos grupos racistas e fascistas em Santa Cruz. Falam de independência e separação, mas o povo cruzenho aposta na unidade, e esta é nossa alegria, ver esta transformação de consciência”.

“Não há famílias no altiplano que não tenham familiares em Santa Cruz, Beni, Pando, ainda que haja muito racismo. Em Pando, em Cobija, as casas queimadas e saqueadas, foram apenas a dos orinoquenhos, onde nasci. Imagine esta mentalidade racista, de castigar e amedrontar, para que nunca mais estes povos se levantem. Historicamente, sempre quiseram humilhar dessa maneira”

“Por isso, digo que há uma rebelião. Eu acredito nas forças do povo.”

Os dez mandamentos

Em setembro, na Assembléia Geral das Nações Unidas, Morales apresentou seus “Dez mandamentos para salvar o planeta, a humanidade e a vida” (ver abaixo). “Não me arrependo por ter lançado isto”, disse com um sorriso. “O primeiro dos dez mandamentos é acabar com o capitalismo, e em uma semana o capitalismo desabou. Eu tinha razão!”

Gerhard Dilger/Especial para Terra Magazine

“Esta proposta dos 10 mandamentos, claro, tem muito mais respaldo dentro dos movimentos sociais, não apenas na América Latina, mas também na Europa. Não é a última palavra. Quero que os povos, os movimentos sociais e os partidos políticos a melhorem. Não se trata de buscar apenas uma ratificação, senão de construir uma nova proposta frente ao capitalismo”.

Os dez mandamentos, na versão que Evo Morales enviou ao Fórum Social das Américas, na Guatemala, em 9 de outubro:

Primeiro: se queremos salvar o planeta Terra para salvar a vida e a humanidade, estamos na obrigação de acabar com o sistema capitalista. Os graves efeitos das mudanças climáticas, da crise energética, dos alimentos e financeira, não são produto dos seres humanos em geral, mas do sistema capitalista vigente, desumano com seu desenvolvimento industrial ilimitado.

Segundo: renunciar à guerra, porque nas guerras não ganham os povos, ganham apenas os impérios, não ganham as nações, ganham as multinacionais. As guerras beneficiam a pequenas famílias e não aos povos. Os trilhões que se destinam à guerra devem ser destinados para reparar e curar a Mãe Terra, que está ferida por causa das transformações climáticas.

Terceira proposta para o debate: um mundo sem imperialismo nem colonialismo, onde as relações devem estar orientadas no marco da complementaridade, e levar em conta as profundas assimetrias que existem de família para família, de país para país, e de continente para continente.

O quarto ponto está relacionado ao tema da água, que deve ser garantida como direito humano e evitar sua privatização e concentração em poucas mãos, já que água é vida.

Como quinto ponto, quero lhes dizer que devemos buscar maneiras de acabar com o desperdício energético. Em 100 anos, teremos acabado com a energia fóssil criada durante milhões de anos. Como alguns presidentes reservam terras para automóveis de luxo e não para o ser humano, devemos implantar políticas para frear os biocombustíveis e, desta forma, evitar a fome e a miséria de nossos povos.

Como sexto ponto: respeito à Mãe Terra. O sistema capitalista trata a Mãe Terra como uma matéria-prima, mas a terra não pode ser entendida como uma mercadoria. Quem poderia privatizar ou alugar, negociar sua mãe? Proponho que organizemos um movimento internacional em defesa da Mãe Natureza, para recuperar a saúde da Mãe Terra e restabelecer a vida harmônica e responsável com ela.

Um tema central como sétimo ponto para o debate é que os serviços básicos, como água, luz, educação, saúde devem ser considerados como um direito humano.

Como oitavo ponto, consumir o necessário, priorizar o que produzimos e consumimos localmente, acabar com o consumismo, o esbanjamento e o luxo. Devemos priorizar a produção local para o consumo local, estimulando a auto-sustentação e a soberania das comunidades dentro dos limites que a saúde e os recursos escassoz do planeta permitam.

Como penúltimo ponto, promover a diversidade de culturas e economias. Viver em unidade, respeitando nossas diferenças, não somente fisionômicas, também econômicas, economias manejadas pelas comunidades e associações.

Como décimo ponto, plantemos o Bem-Estar, não viver melhor às custas do outro, um Bem-Estar baseado na vivência de nossos povos, as riquezas de nossas comunidades, terras férteis, água e ar limpos. Fala-se muito do socialismo, mas há que melhorar esse socialismo do século XXI, construindo um socialismo comunitário ou simplesmente o Bem-Estar, em harmonia com a Mãe Terra, respeitando as formas de vivência da comunidade.

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novembro 2, 2008

O fim das Repúblicas de Bananas

Tags:, , , - cia2008 às 12:54 pm

“A América busca voz em uma reforma econômica - Brasil, México e Argentina leverão a mensagem ao G-20″: Em sua capa de sábado, o diário salvadorenho La Prensa Gráfica resume bem o tema real e o resultado principal desta Cúpula.

Normalmente os mega-encontros presidenciais não são exatamente apaixonantes. As declarações são preparadas antecipadamente. Cada um dos participantes trata de vender sua imagem, e muitas vezes os jornalistas estão mais interessados no que “seu” chefe de Estado tem a dizer sobre assuntos nacionais que no evento mesmo.

Em San Salvador não foi diferente. José Luis Rodríguez Zapatero teve que defender a rainha Sofía por uma polêmica sobre supostas declarações da soberana sobre o casamento gay.

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Quando os interesses entre Espanha e suas ex-colônias são tão divergentes, é natural que as declarações finais consensuadas têm que ser tímidas. Entretanto, ficou claro que os governos de esquerda ou centro-esquerda da América Latina seguem promovendo a emancipação econômica da antiga metrópole, apesar do governo espanhol. E que muitos presidentes liberais e conservadores se vêem forçados a adaptar seu discurso aos novos tempos.

A posição da Espanha e de Portugal é menos cômoda que nos nos 90, quando as multinacionais da Península Ibérica foram as que mais lucraram com a onda de privatizações realizadas na América Latina por governantes submissos à lógica neoliberal.

A isto se soma a crise das instituições multilaterais controladas pelos Estados Unidos e Europa como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O colapso dos mercados financeiros que parece vislumbrar uma virada keynesiana a nível global esquentou a Cúpula deste ano.

José Sócrates, o primeiro ministro português, pôs o dedo na ferida: “O FMI se formou para ajudar e agora mesmo escutei o presidente de El Salvador dizer que, felizmente, El Salvador não tem contratos com o FMI. Isto diz tudo sobre a credibilidade e prestígio que hoje o FMI tem no mundo”.

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Sobre o encontro de 15 de novembro, quando 20 países iniciarão negociações sobre reformas do sistema financeiro internacional, Sócrates disse: “É da maior importância que a Espanha esteja na reunião em Washington. É da maior importância que as primeiras reuniões comecem bem, e por isso a Espanha tem que estar nesta reunião”.

A realidade será outra: apesar de unânimes declarações de apoio de todos os presentes à pretensão espanhola, os que irão a Washington são os “emergentes” México, Brasil e Argentina.

Na relação com empresas estrangeiras, alguns governos latino-americanos estão mostrando uma autonomia que há poucos anos parecia difícil de se imaginar. A notícia que impactou a Cúpula no seu último dia foi expulsão da petroleira espanhola Repsol pelo governo equadoriano, medida confirmada por Rafael Correa em seu regresso ao Equador.

Correa, que tem se mostrado igualmente firme frente às multinacionais brasileiras Petrobras e Odebrecht, manifestou: “Que entendam as companhias transnacionais: A Banana Republic acabou. Aqui as condições não vão ser impostas por elas, serão impostas pelo país”.

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novembro 1, 2008

No encerramento, vocalista do Maná cria desconforto

cia2008 às 11:11 am

No encerramento da cúpula, o tema “Juventude e desenvolvimento” recebeu destaque com a presença dos cantores Shakira, Alejandro Sanz e Fher. Mas diferentemente da abertura, na qual milhares de jovens salvadorenhos haviam desfrutado de um show variado, o fim do evento teve um certo sabor burocrático.

Os chefes de Estado assinaram a Declaração de San Salvador, de 41 pontos, aprovada na quinta-feira, assim como uma série de documentos adicionais. Os músicos apresentaram o projeto “Infância precoce”, da Fundação Alas, para crianças até seis anos.

Álvaro Uribe se dirigiu a Shakira: “Nos sentimos muito orgulhosos que você, ainda quase uma criança, depois de ter alcançado esse reconhecimento mundial por seus talento, esteja empenhada nessa causa tão nobre”.

A única nota dissonante foi colocada por Fher: “Não sei se seja justo incluir a Espanha e Portugal em algumas das enfermidades que sofre a América Latina”, disse o vocalista do grupo mexicano Maná, “mesmo que talvez seria correto, sim, fazê-los parte das causas”.

Desta vez não houve nenhum conflito remotamente parecido com a disputa de Hugo Chávez e Daniel Ortega com José Luis Rodríguez Zapatero e o Rei Juan Carlos I, como na Cúpula anterior. O monarca havia abandonado o recinto depois de duras críticas de Ortega à multinacional de energia Fenosa e à embaixada espanhola, pela sua atuação na Nicarágua. O rei Juan Carlos, da Espanha, e o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega (Foto: Gerhard Dilger/Especial para Terra Magazine)

Reconciliados?

“Podemos dizer que já estão restabelecidas as boas relações entre o governo espanhol e particularmente com a Venezuela e a Nicarágua”, declarou Ortega, depois de voltar a seu país.

Mas a resistência de alguns governos a aceitar a posição desejada pela Espanha como primus inter pares ficou evidente, particularmente na atitude de Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente brasileiro limitou sua presença na Cúpula a poucas horas, e seu governo, que deveria ser o anfitrião da Cúpula de 2011, ainda não deu luz verde a esse desejo da Secretaria Geral Ibero-americana.

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